quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A força do Espiritismo


A força do Espiritismo não se faz pelos seus representantes governamentais, pelas celebridades que comungam essa crença ou pela altura do domo das casas espíritas; sua força vem do nosso exemplo.

Certa vez, em um jornal espírita da década de 90, lemos a seguinte frase de um articulista: “(...) perdemos a grande oportunidade de eleger fulano como deputado federal e mostrar a força do Espiritismo”.
Será que essa é realmente a força do Espiritismo? Será que o Espiritismo, como religião, precisa de representantes na estrutura da República?
Essa questão sempre volta à baila em períodos eleitorais, quando recebemos emails ou vemos peças de publicidade de candidatos que exaltam essa condição, na busca de ampliar a sua base de eleitores por uma afinidade religiosa. Além de procurar no público espírita seus eleitores, alguns, por vezes, se arriscam a se proclamar representantes do Espiritismo no plano político. Essa situação não é das mais simples e implica diversas questões.
Quando falamos de candidatos espíritas, pensamos logo em situações em que a imagem e o bom nome do Espiritismo não sejam afetados, caso um candidato dito "dos espíritas" apareça em situações lamentáveis na mídia.
Por outro lado, a vida política é saudável e desejável. A política está presente no nosso dia-a-dia, quando precisamos fazer escolhas, estabelecer consensos, negociar, ceder, em prol de um bem maior. O espírita não pode ser um alienado, ele é um "homem do mundo" – de nada adianta viver os nossos dias pensando apenas nos sofrimentos ou consolações futuras.
Em tempos recentes vivemos recheando nossas Casas Espíritas com eventos grandiosos de autoajuda, shows artísticos, badaladas palestras e novidades literárias. Queremos descobrir o que fomos no passado, mas abdicamos de fazer o bem no presente.

Os espíritas não podem esquecer que são também cidadãos, homens com deveres diante da questão social.

Fazer o bem é se ligar às questões sociais, ao coletivo! Nesse sentido, não devemos ser omissos. Precisamos estar engajados nas lutas sociais, nas questões da coletividade, na busca do bem comum.
Como diria Bezerra de Menezes, que, aliás, foi deputado antes de presidir a Federação Espírita Brasileira: “(...) para nós, a política é a ciência de criar o bem de todos. E nesse princípio, nos firmaremos”.
E nesse campo também é possível fazer o bem! A política também é sementeira divina do plantio do progresso.
Essa intervenção permanente do Espiritismo nos problemas do mundo se apresenta bem em A Gênese, quando Kardec assevera: “(...) o Espiritismo trabalha com educação. Esta é a base da própria Doutrina, pois, para praticá-la, temos de nos educar. E a educação tem um conteúdo extremamente político, pois muda
nossa forma de ver o mundo e de agir nele”. Reafirma-se aí a necessidade de os espíritas não esquecerem que são também cidadãos, homens do seu tempo, com deveres diante da questão social.
A necessidade de nossa participação na vida social é, no entanto, diferente da situação de apresentar-se com a credencial "espírita" para pedir votos. “O Espiritismo se liga a todos os campos das atividades humanas, não para entranhar-se neles, mas para iluminá-los com as luzes do Espírito. Servir o mundo através de Deus é sua função e não servir a Deus através do mundo”, reitera Kardec na mesma obra já citada.

Não pensamos ser um bom caminho adotarmos o lema “espírita vota em espírita”

Em face disso, se quisermos pleitear a ocupação de um cargo público eletivo, devemos nos isentar de associar essa cruzada político-social aos papéis desempenhados no movimento espírita, e, como disse Kardec, iluminar nossa jornada política com o Espiritismo e não o Espiritismo com a nossa jornada política. Essa é a diferença entre ser um espírita-candidato e ser um candidato-espírita.
Quanto aos eleitores, nos parece bastante razoável que cada um escolha aqueles projetos que, de acordo com seu foro íntimo, atendam de maneira mais adequada às necessidades de sua coletividade. E, com base nesses, escolha seus candidatos, independentemente das crenças que esses professem. Para isso existem partidos políticos, para congregar nossas ideias no campo político! Existem várias formas de se obter espaço, prestígio ou força para defender nossos princípios, que não seja a opção de destacarmos, dentre um numeroso grupo de espíritas, um representante para disputar um cargo eletivo.
A César o que é de César! O Estado é laico!
Essa foi uma grande luta desse país e constitui a base da democracia. Não pensamos ser um bom caminho adotarmos o lema “espírita vota em espírita”. Isso pode redundar em situações-limite de pedidos de votos em reuniões públicas, ou ainda, intervenções na opinião política dos frequentadores da casa espírita, ambas as situações que na nossa visão seriam eticamente inconcebíveis.
A força do Espiritismo não se faz pelos seus representantes governamentais, pelas celebridades que comungam essa crença ou mesmo pela altura do domo das casas espíritas. A força vem do exemplo e da difícil tarefa de se fazer a reforma íntima para a construção do homem de bem. Esse é o nosso desafio!

Não devemos votar em alguém pelo simples fato de ele trazer em seu currículo a condição de espírita.

Para isso não conseguimos vislumbrar, sinceramente, a necessidade de se ter um representante do segmento espírita em qualquer órgão legislativo ou do Executivo, como situação que ajude a promover a renovação na busca do homem de bem.
Somos espíritas e cidadãos, o que não são coisas excludentes. Queremos, sim, pela nossa ação, povoar de homens de bem as instâncias decisórias, sejam eles espíritas ou não.
O grande risco dessas situações, em um país com muitos espíritas como o nosso, com um número maior ainda de simpatizantes, é o oportunismo de se aproveitar o bom nome que goza o Espiritismo para carrear votos e a promoção pessoal no período eleitoral.
A questão da representatividade é de mão dupla. O candidato representa o Espiritismo, mas o Espiritismo é representado por sua conduta como político. Se ele se arvora em se proclamar representante da Doutrina, acaba com sua imagem representando-a para quem o ouve, mesmo que o movimento espírita disso não se dê conta.
A decisão de alguém de se candidatar é um direito individual que deve ser respeitado. A participação política deve ser uma consciência, sob pena de nos tornarmos analfabetos políticos, como bem preconizava Bertolt Brecht. Mas não devemos depositar nosso voto pela simples razão de o panfleto do candidato trazer, como currículo, o fato de ser espírita, doutrinador, orador ou congênere.
O voto deve ser dado pela história de cada um, pelas suas propostas e pelo seu alinhamento na esfera política. Se o votado for espírita, ou não, isso pouco deve importar nesse contexto.

Marcus Vinicius de Azevedo Braga é pedagogo e um dos articulistas desta revista ( Consolador ) e de diversos periódicos. Paulo de Tarso Lyra é jornalista e articulista espírita.

Marcos Vinicius de Azevedo Braga
acervobraga@gmail.com e
Paulo de Tarso Lyra
brasiliaespirita@uol.com.br
Brasília, Distrito Federal (Brasil)


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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Utopia


Em 1516, Thomas More (1478-1535) – célebre escritor e pensador inglês -, escreve sua obra mais famosa: Utopia.
Em seu livro, conta More que Utopia é uma ilha encravada no continente europeu onde existe a sociedade ideal. Todos trabalham, não há falta do necessário, as crianças estudam, há respeito entre os habitantes, o governo é justo. Em Utopia, hospitais são pouco utilizados porque seus habitantes são saudáveis e entendem a perfeita relação entre corpo e mente, há tolerância religiosa e todos se consideram habitantes de uma mesma família, enfim, são felizes.
Nos dias de hoje, em realidade, já há alguns séculos, a palavra Utopia tomou sentido pejorativo tornando-se sinônimo de fantasia, algo inalcançável e que não há possibilidade de existir.
Com as injustiças que grassam no mundo, se observamos apenas a superfície das situações, ficamos a pensar que a obra de More, e a ilha chamada Utopia, são ficção científica. Sociedade ideal? Uma fantasia. O mundo está cheio de velhacos que vivem a lei dos espertos. Mas é preciso mergulhar mais a fundo, estender a visão um pouco mais para ver que a sociedade está mudando, e para melhor. A ilha de Utopia não é mera ficção, caro leitor. Nossa sociedade já foi pior, mais injusta e cruel, mais corrupta e ignóbil, são os livros de história que nos contam isso.
Precisamos acreditar na possibilidade de modificação da criatura humana, necessitamos de sonhar em conjunto para que a sociedade ideal se concretize. Se passarmos a considerar que tudo vai de mal a pior, corremos sério risco de nos enredar nas teias da permissividade para com a corrupção, violência e injustiça, em triste pensamento: “Se todos fazem, se todos roubam e desrespeitam, por que apenas eu tenho de respeitar e ser honesto?”
Sem contar que, a realidade se mistura à fantasia, muitas vezes a fantasia se torna realidade porque houve alguém disposto a lutar por essa “Utopia”. No início do século XIX quem poderia sonhar que a escravidão acabaria, ou mesmo que o homem seria capaz de voar, diminuindo a distância entre os continentes. Há algumas décadas impossível conceber que as mulheres alcançariam sucesso profissional, para a sociedade de outrora, a mulher era um ser sem a mesma capacidade do homem, aliás, há alguns séculos as mulheres, segundo os teólogos, nem alma possuíam. No começo do século XX, se alguém falasse que faríamos contato com o mundo todo com apenas um clic de mouse, seria chamado de maluco, ou na melhor das hipóteses de utópico. Criaturas visionárias, que enxergam além desse estreito horizonte, não raro são chamadas de fantasiosas, é comum ouvirmos frases do tipo: “O que ele diz é muito bonito; perdoar, compreender, tolerar são excelentes medidas que tomamos em nosso dia a dia, no entanto, funcionam apenas na teoria, porque na prática é diferente”.
A mediocridade não consegue conceber algo que vá adiante de suas idéias e preconceituosas convicções, por isso há tanto desprezo pelos ideais que podem trazer a melhoria. Muito simples falar que uma idéia é Utopia, no sentido de fantasia, do que arregaçar as mangas e procurar transformar aquela idéia em realidade.
Portanto, caro leitor, a sociedade ideal, baseada na ilha de Utopia é possível de se concretizar, aliás, depende apenas de nós.
Vamos adiante e afirmamos que, a sociedade ideal acontece em nossa casa mental, na forma como nos relacionamos com o mundo exterior e nosso mundo íntimo. Se almejamos a paz, que trabalhemos por ela. Se queremos um bom relacionamento no lar, no ambiente profissional, no recinto religioso, que lutemos por ele, procurando dentro de nossas possibilidades melhorar o lugar onde vivemos, porquanto, cedo ou tarde, a sociedade ideal descrita por More se consumará, pois tudo caminha para a evolução e progresso.
Pensemos nisso.

Wellington Balbo
wellington_plasvipel@terra.com.br

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terça-feira, 21 de setembro de 2010

A política do ABORTO


O que se quer é “desumanizar” o embrião


O deputado José Genoino, no artigo de Wellington Balbo, nos fez recordar o artigo: “Eleição, Mulheres e Voto Consciente”, publicado na Revista Internacional de Espiritismo, setembro de 2000 - http://www.espirito.org.br/portal/artigos/neurj/eleicao-mulheres-e-voto-consciente.html
Antes das eleições, na TV duas candidatas discutem. Uma delas havia enfrentado, com muita angústia, um aborto espontâneo. Percebi que, embora fossem do mesmo credo, apresentavam posições antagônicas. Eram materialistas. Muitos têm fé no niilismo e acreditam na inexistência de vida após a morte, embora esta tese seja defendida sem nenhuma evidência experimental que a suporte. Uma opinião apresentada por uma delas, a de que o aborto é um direito, foi o que me chamou a atenção. Disse: “a campanha pela legalização do aborto deve seguir na direção pura e simples do direito de abortar, não necessitando a mulher explicar que há problemas com o feto ou que foi estuprada. O aborto não deve ser considerado crime e o argumento que invoco é um só. A mulher pode dizer que não quer este filho e que seu corpo lhe pertence. Este é o projeto de lei pelo qual anseiam as mulheres".
Diz a outra: “mas, aqui o direito de um implica na morte do outro. Não podemos autoatribuirmos a decisão e a ação de matar o outro. Isto é questão de poder acumpliciado a uma licença ética. É exatamente o que se dá com o político que leva o povo à guerra; dá-se ainda com o terrorista, com o torturador, com os assassinos de todos os matizes. Poder e não-ética, associados, produzem todas as lesões ao outro: o roubo, a censura, o seqüestro, a lista é longa. O aborto não é um direito, é uma possibilidade decorrente do poder e da anestesia da consciência, como escravizar o negro, matar judeus.”
Como que se não tivesse escutado os argumentos, surge a réplica: “A legislação do aborto não dá à mulher autonomia sobre seu corpo. Precisamos entrar na modernidade! Estamos atrasados em relação à Itália, Alemanha ou à França.”
“Sim. Mas, não seria o caso de ampliar a informação sobre anticoncepção? Usar do direito de não engravidar, nestes dias de Aids, usar a camisinha e exigir a colaboração do companheiro?”
“É, mas um dia a casa cai e você aparece grávida, minha filha!" - diz a outra.
A resposta estava na ponta da língua: “mas a culpa é do bebê?” O óvulo é seu. O útero, também, mas o ovo fertilizado é outra pessoa!
A outra engoliu em seco e não se deu por vencida.
“Sim, mas enquanto os teóricos, como você, discutem se o feto com duas ou com quatro semanas já é uma pessoa, a mulher engrossa as estatísticas. As mulheres pobres vão continuar abortando com agulha de tricô? De repente a outra disse: “Espera aí, vamos entrar nessa de que o Ministério da Saúde adverte... e, gastar fortunas dos recursos públicos, para tratar enfisema e câncer pulmonar que apareceram por causa de uma droga socialmente aceita? “Minha amiga”, falou com tom de piedade, “não seria melhor investir numa estrutura melhor para gerar filhos? Investir em creches e oferecer orientação sobre contracepção? O país já tem os sistemas de comunicação bem desenvolvidos é só questão de vontade política fazer a opção pela educação!” E arrematou: “Isto não é o mesmo que colocar o aborto na lei e a consciência fora da lei?”
“Ora, minha amiga, estamos discutindo a existência de alguém que ainda nem é uma pessoa. É apenas um amontoado de células. Eu estou defendendo a mulher e você vai ficar defendendo um feto!”
“A mulher é sempre ignorada. Essa é a grande questão do nosso século. As mulheres que abortam, no Brasil, não o fazem por opção. Quando falo no direito de abortar falo em direito à vida humana, decente e digna. É preciso existir estrutura para gerar filhos, foi você mesma quem colocou!”
“Sim”, veio a resposta: “e deve ser aí que devemos gastar a nossa energia e não tentando desumanizar o outro! Sempre que se quer humilhar, castrar, limitar ou matar o outro, recorre-se a esta técnica consagrada. O primeiro ato é desumanizar. Se o embrião é um "vir a ser", mas não é ainda por que não suprimi-lo em favor dos que são?
Hitler e Stálin tinham idéias, até nobres, pelas quais se delegaram o direito, e até o dever, de matar judeus, dissidentes, capitalistas, comunistas e católicos. O que se quer é “desumanizar” o embrião para adormecer as consciências com uma legitimidade.
"A ciência não tem uma definição de vida, portanto não pode justificar um procedimento tão grave sobre o que desconhece.”
Este diálogo é encontrado no opúsculo que recebeu o título “Antes de votar pergunte ao candidato sobre o aborto” e que está colocado em Campanhas (1998), na antiga HP do NEU-RJ, no endereço eletrônico http://www.geocities.com/neurj/neurj.htm
Votar não é fácil, apertar botões não deveria ser a única preocupação dos educadores de época de eleição. Devemos tomar cuidado. Nestes dias, na beira do precipício Portugal recebeu o empurrão!

Luiz Carlos D. Formiga
é professor universitário da UFRJ e UERJ, aposentado.


Matéria extraída do Jornal dos Espíritos - o seu jornal espírita na internet
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