quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Viver no Mundo sem ser do Mundo


Frase que dá título a este artigo é de autoria de Cairbar Schutel e consta do livro de sua autoria, Parábolas e Ensino de Jesus.
Estudando sobre a vida na Terra e a vida eterna, o autor ensina que “o escopo da vida na Terra é o aperfeiçoamento do espírito. Aquele que assim compreende, eleva-se, dignifica-se, e, livre dos entraves materiais, sobe às alturas inacessíveis ao sofrimento, alcançando a felicidade eterna”.
No entanto, são poucos, muitos poucos, os que têm essa compreensão e que desde logo procuram aproveitar a oportunidade que a presente existência nos oferece para realizar, com verdade e denodo, a transformação moral, objetivo principal da vida terrena.
Todos nascemos e renascemos em obediência ao comando divino chamado Lei do Progresso. Por conseguinte, “não estamos aqui para derrotas, mas para sermos vitoriosos”, conforme feliz afirmação da pedagoga Heloísa Pires.
De fato, todos aqueles que se dispõem a trabalhar no terreno do bem, perseguindo, incansavelmente, em cada gesto, a renovação e a reforma íntima, conseguirão dar largos passos no caminho traçado por Deus. Eis a fórmula da felicidade, tendo em conta que, na esteira do que ensinou Jesus, “a cada um será dado segundo suas obras”.
Acontece, porém, que a grande maioria da humanidade não procura conhecer as verdades contidas nas lições constantes que a vida nos oferece. Lançam as suas preocupações e os seus esforços para amealhar as efêmeras alegrias do mundo. Acumulam tesouros em local errado, como diria o Mestre, onde não há sorriso que não comporte a herança de uma lágrima, nem gozo material satisfeito que não recaia no enfado, no fastio. Mas o destino do espírito não é se enfastiar, nem tombar exausto no abismo da saciedade. O corpo, esse poderá saciar-se, mas o espírito não se aquieta enquanto sedento de luz, faminto de justiça e de saber, ansioso por conquistar a felicidade que não passa.
As festas dos prazeres materiais, que privilegiam os sentidos, levam o homem a uma felicidade fictícia, irreal, as quais, em contradição com as suas aparências, são muito tristes. Quantas responsabilidades contraem os que navegam sem bússola nos mares do gozo! Quanta degradação! Quanta obcecação! Pobres aqueles que buscam flores onde só se pode encontrar espinhos.
O espiritismo não condena o gozo. Embora estejamos sujeitos a expiações e provas, das quais necessitamos e com as quais nos comprometemos, Deus quer que sejamos felizes. Mas esse gozo deve ser racional, belo. Não se confunde com a concupiscência, com a irresponsabilidade, com a leviandade de quem só conhece direitos e não enxerga obrigações.
Todos necessitamos almejar uma vida melhor, usufruindo os bens que a Terra nos oferece. Mas para isso exige-se discernimento, sabedoria. Quem opta por degradantes deslizes, certamente colherá conseqüências que nos serão cobradas na volta para o mundo espiritual, nossa verdadeira morada e, ainda, em novas reencarnações aqui ou em outros mundos para onde seremos levados pela Lei de Afinidade.
Os que reconhecem seus erros, os arrependidos e submissos, precisam tomar o caminho de volta à “Casa Paterna”, como ensina Jesus através da parábola do filho pródigo. Este retorno representa o reinício de uma nova vida, preparando-se para a viagem que todos teremos que fazer através do fenômeno morte ou desencarnação, como leciona o espiritismo.
Na mesma trilha, ainda lembramos as palavras de Cairbar Schutel: “Quem luta pelo seu aperfeiçoamento no campo do saber e do amor, eleva-se, dignifica-se, e, livre dos entraves materiais, sobe às alturas inacessíveis ao sofrimento, alcançando, dessa forma e só assim, a felicidade real, tão desejada por todos. Aquele que não quer compreender rebaixa-se, desmoraliza-se, e, absorvido pelas paixões, desce às voragens da dor, para expiar e reparar as faltas, as transgressões das leis divinas. (…) A vida na Terra, para os que acumulam tesouros nos Céus, é a senda luminosa que liga a Terra aos Céus, é a estrada comunicativa que lhes permite a passagem para se apossarem desse tesouro. Os que vivem na Terra pela Terra, são da Terra; os que vivem na Terra sem serem da Terra, são dos Céus. A vida na Terra é efêmera; a Vida nos Céus é eterna, e a posse da Vida Eterna consiste no cumprimento da Lei: ‘Buscai o Reino de Deus e a sua justiça, que tudo o mais vos será dado por acréscimo’, como nos ensinou Jesus”

Édo Mariani
https://artigosespiritas.wordpress.com/2011/10/30/viver-no-mundo-sem-ser-do-mundo/

Jornal “O Espírita Fluminense”
Instituto Espírita Bezerra de Menezes – IEBM – Niterói – RJ

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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Desilusões e Decepções


Mesmo que não pareça, pela dor que causa, desiludir-se é bom. Desiludir-se é sair de uma ilusão, de uma visão distorcida ou equivocada acerca de alguém, de algo, de alguma circunstância. Portanto, a desilusão é benéfica, apesar dos dissabores que inicialmente pode causar. Com o tempo e o amadurecimento, as desilusões passam até a ser bem-vindas, pois indicam crescimento interior.
As decepções possuem outras características. É expectativa frustrada. Decepcionar-se é esperar demais de uma situação ou de alguém e não ter os resultados esperados. Em muitos casos, desilusão e decepção se fundem num só sentimento de abatimento moral, de desânimo e, por vezes, de descrença.
Muitos estão decepcionados com a humanidade que, apesar do grande número de seres moralmente e espiritualmente superiores que por aqui tem passado, permanece no atraso. Evoluímos muito em técnicas e mesmo em ciência, mas tão pouco em valores humanos e espirituais. Os apelos do mundo externo são tão fortes que muitos vivem em sua função. Deles se nutrem e para eles vivem. A desilusão os aguarda após o retorno à verdadeira vida.
Outros estão decepcionados com a sociedade que criamos, que valoriza em demasia o ter, o possuir, e tão pouco o ser, o caráter, as qualidades e as virtudes morais. Quando falamos de virtudes não nos referimos a crenças em particular. O homem de bem independe de uma crença. Ele faz o bem porque é bom, com naturalidade, sem esperar nada em troca.
Não são poucos os que veem nossa humanidade como uma locomotiva prestes a descarrilar. É como se tivéssemos entrado em alta velocidade num nevoeiro, sem saber o que vem em seguida. Um mundo de inseguranças e incertezas, de medos e de sensação de impotência. Estamos tentando acionar os freios, rever as rotas, corrigir os erros, mas… os que fazem isso ainda são minoria.
Imenso número de pessoas pelo mundo está decepcionado e desiludido com a política e com os políticos. Passou o tempo das mentiras, dos segredos e dos silêncios. Graças à internet quase tudo se torno público em tempo real e fica difícil, cada vez mais difícil, mentir e ganhar tempo para manipular o povo.
É errado desprezar a política, pois essa é a vida de relação. Tudo o que fazemos tem caráter político, seja por ação ou omissão. A política partidária é outra coisa. Mostra-se esgotada no atual modelo. Não tem caráter representativo e o pragmatismo favorece grupos. É uma luta pelo poder, pelo controle, pela condução do povo segundo critérios de grupos dominantes.
Mas não podemos nos esquecer de que esse mesmo mecanismo pode ser usado para o bem. Se grupos de pessoas à altura da tarefa assumem o controle político de nações, esses mecanismos podem servir para a construção de sociedades justas, equilibradas, mas fraternas, onde o estímulo ao respeito às diferenças são freqüentes, eliminando – pouco a pouco -, as disposições mentais para o confronto.
Há muita, muita gente mesmo, decepcionada e desiludida com as crenças, seitas e religiões. O deus mercado, o bezerro de ouro, aparentemente – ou temporariamente – venceu. Praticamente tudo gira em torno do dinheiro e do poder temporal. O Criador anda ausente nos discursos e preleções. Jesus, Buda, Sócrates e tantos outros luminares da humanidade, são citados de passagem por mera conveniência retórica; como uma pitada de sal na mistura de ideias, num esforço para lhes dar algum sabor.
Nem a Doutrina Espírita vem escapando dessa prática. É natural que ela se apresente com aspectos novos, como desejava e previa Allan Kardec. Uma doutrina evolucionária e revolucionária, que acompanhe a ciência e os conhecimentos humanos, autocorrigindo-se onde e quando preciso, fazendo das obras do codificador um ponto de partida e não de chegada. É cada vez menor o número de leitores de obras com certa densidade e há, até mesmo, desprezo pelo conhecimento.
Quase não há mais pesquisa dos aspectos científicos da paranormalidade. Há pouca ou nenhuma reflexão filosófica e sobram repetições de trechos evangélicos, muitas vezes mal alinhavados, mal interpretados ou claramente adaptados a interesses de grupos. O senso crítico, autocrítico e o bom senso, recomendados pelo codificador, andam igualmente se afastando do movimento espírita que – em certos casos – se vê às voltas com a mentalidade de rebanho, seguindo pessoas e não mais a Doutrina Espírita.

Coisa para se pensar!

Paulo R. Santos

Instituto Espírita Bezerra de Menezes – IEBM – Niterói – RJ
Jornal Informativo “O Espírita Fluminense”

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terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Coerência


“Cuida para que teus atos e palavras expressem a mesma linguagem.” – François C. Liran

Jesus, nosso “modelo e guia mais perfeito”, Mestre por excelência, legou-nos as mais altas expressões de coerência. Nunca houve defasagem entre suas palavras e atos. Antes d’Ele, temos também Sócrates, evidentemente com menos brilho, mas na mesma linha comportamental.
Em várias oportunidades, o meigo Rabi desaconselhou a dubiedade, a falsidade… Estão aí registradas, indelevelmente, pelos Evangelistas a Parábola da Figueira Estéril e a significativa expressão “túmulos caiados”.
O espírita-cristão não se pode deixar surpreender em contradição entre o que fala e o que faz.
O espiritismo, revivendo as fórmulas eternas do Cristianismo, não deixa margem a dúvidas quanto à coerência que deve existir entre a mensagem verbal e o procedimento na prática de seus seguidores. Nossos atos deverão ser o adubo enriquecedor de nossas palavras, produzindo assim, os frutos da verdade, da coerência.
Jesus falava com autoridade e tanto suas palavras quanto os seus atos traduzem uma coerência inquestionável. Assim, do mesmo modo deve agir toda criatura que o elegeu como Mestre.
A fidelidade doutrinária é, antes de tudo, o compromisso maior do espiritista sincero. O contrário seria a revivescência do farisaísmo de tão triste história.
Resta-nos indagar à nossa consciência se, na verdade, estamos atendendo o postulado Kardequiano de “dia-a-dia combater as inclinações más e cuidando da transformação moral”, ou se, a exemplo dos fariseus, estamos apenas mostrando um leve verniz, que esconde sob a sua fina camada “podridão por dentro”.
Não sejamos como a figueira estéril que, embora repleta de folhas, não possuía frutos.
Possa o Mestre Maior contar com a nossa operosidade no Bem, expressada, coerentemente, em atos e palavras na mesma linguagem.

Rogério Coelho

Jornal “O Espírita Fluminense”
Instituto Espírita Bezerra de Menezes – IEBM – Niterói – RJ

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quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

A metáfora da laje


A obra mediúnica de Chico Xavier trabalha incansavelmente o pensamento de que o espírita é alguém que assumiu, previamente a essa experiência corpórea, compromissos de tarefa no bem, por via da seara espírita.
André Luiz se reporta a vastas e complexas escolas domiciliadas nas esferas espirituais mais próximas do planeta destinadas a preparação de colaboradores para as tarefas espíritas. Comenta que longas fileiras de médiuns e doutrinadores para o mundo carnal partem daqui, com as necessárias instruções, porque os benfeitores da Espiritualidade Superior, para intensificarem a redenção humana, precisam de renúncia e de altruísmo.[i]

Emmanuel, na mesma linha, exorta-nos:

Se te encontras, quanto nós, entre aqueles que tanto recebem da Nova Revelação, perguntemos a nós mesmos o que lhe damos em serviço e apoio, cooperação e amor, porque sendo o Espiritismo crédito e prestigio de Cristo entregues às nossas consciências endividadas, é natural que a conta e o rendimento que se relacionem com ele seja responsabilidade em nossas mãos.[ii]

Recentemente, tem-se ouvido de simpatizantes da Doutrina espírita que tal pensamento é por demais exclusivista, retratando uma espécie de ufanismo espírita, pois o que importa é fazer o bem, independentemente se no ambiente espírita ou em qualquer outro espaço vital.
Indiscutivelmente, ser bom, útil, justo e generoso é uma proposta transcendental de vida, e tem seus méritos próprios; assim, jamais deve ser limitada a este ou aquele setor específico. No entanto, o que os benfeitores espirituais têm mostrado é que um serviço anteriormente aceito faz parte de um programa extenso e complexo do qual não fazemos a mínima ideia. A questão que importa no caso ora examinado, portanto, não é a ação no bem em si mesma, mas a especificidade que lhe caracteriza.

Para ilustrar, consideremos a seguinte metáfora. Armando está construindo, na cidade de Astolfo Dutra uma nova casa e pede a Arthur, amigo querido, colaboração no enchimento da laje. Combinam para a manhã do domingo seguinte.
Na data aprazada, Arthur levanta-se cedo e parte em direção à futura morada do amigo, conforme combinado. Todavia, em rua anterior, observa que um outro amigo, o Luciano, está igualmente envolvido em morada nova e prepara para também preencher a laje da residência. Atendendo ao convite de Luciano, Arthur fica por lá mesmo, auxiliando alegremente o amigo. Diante do acontecido Armando fica impossibilitado de seguir sozinho na tarefa programada, transferindo-a para outro dia.

A questão que se coloca é esta: Arthur ajudou um amigo, fez o bem, mas faltou com um compromisso previamente assumido, obrigando a uma revisão das tarefas, com os inconvenientes ligados ao fato.
Concluindo: viver é cumprir uma missão, preservando a fidelidade ao núcleo mais íntimo da nossa personalidade, e, consequentemente, aos avalistas de nossa reencarnação que, da dimensão espiritual, acreditaram em nós e investem incansavelmente em nossas realizações.

[i] Os Mensageiros, cap. 3.
[ii] Opinião espírita, cap. 6.

Ricardo Baesso de Oliveira

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